Muitas foram já as tentativas feitas para definir os NuKu... Porém, aquelas que não envolvem palavrões são consideravelmente menos…
Dada a qualidade da sua poesia cantada, muitas vezes foram descritos como Filhos de Camões, de Pessoa, de O'Neill... Mas de todas as outras vezes em que os seus críticos não estavam bêbedos, era Filhos da Mãe que lhes chamavam...
A inimitabilidade das suas músicas originou também um sem-número de comparações a nomes bastante conhecidos em todo o mundo... na área da tortura: Mão Tse Tungs da harmonia, Estalines da afinação, Pinochets do ritmo ou Hitlers da melodia.
Todas estas tentativas acabam por ficar, no entanto, muito aquém do seu objectivo. Para conhecer verdadeiramente a banda, o melhor é prestar atenção à sua História... o que tem a vantagem de, pelo menos durante 4 ou 5 minutos, não ter de escutar as canções!
NuKumeço
Os NuKu nasceram do esforço concertado de todos os vizinhos do prédio onde viviam os seus membros. Cansados de aturar os altos decibéis bombados pelas aparelhagens de Quico Mercúrio, Quim Ricardo, Paulo MáCara e Marina Truca, os vizinhos não paravam de os incentivar: «Ponham mas é as aparelhagens no...»
E assim nasceram os NuKu. Expulsos do prédio, refugiaram-se na música...
O amor e tal...
Vendo-se na rua, somente com os instrumentos musicais que os vizinhos lhes arremessaram aquando da comovente despedida, os NuKu foram obrigados a recorrer ao seu talento para sobreviverem. Perceberam logo que estavam tramados!
Dadas as boas relações dos membros da banda com o Ti Zé Chouriço, do restaurante O Bigodes (no Armadouro, Rua dos Pintos, nº 23, salão para serviço de banquetes com capacidade para 302 pessoas), os NuKu tornaram-se a banda de casamentos oficial do restaurante.

A faceta romântica do grupo emergiu em temas de grande profundidade espiritual-sentimental-afectiva-amorosa-chunga, como o clássico “Barco do amor” [ouvir / letra], mais tarde interpretado por grandes vultos da música do género, como Vítor Espadinha, Marco Paulo e Zé Cabra.
Poliglotas em francês
Seguiu-se a internacionalização, pela mão de Manuel Subtil, que os viu actuar no casamento de uma prima em terceiro grau da sua esposa. O conhecido empresário, radicado em França, levou-os para aquele país, com a complicada missão de animar a festa de casamento da filha do barbudo chorão mais famoso de Portugal, a Cidalina.
Depois do sucesso da boda, o grupo, sentindo-se no seu ambiente ideal, numa Paris fervilhante de arte e cultura, ou apesar disso, gravou algumas das suas composições mais inspiradas, entre as quais o clássico “Parari, parara (je t'aime)” [ouvir / letra].

Os problemas surgiram pouco tempo depois. Aos gritos de «Ai, Jesuuuuus! Tirem-me estes gajos daqui!», Subtil recusou-se a cumprir a promessa de arranjar vistos de permanência para os membros da banda.
Perseguidos pela polícia francesa, liderada pelo inefável Louis de Funés, os NuKu viram-se na contingência de andar de terra em terra com a tenda às costas. Isso, porém, não os abateu.
Filhos da p... do vento!
Obrigados a não terem residência fixa, os NuKu tornaram-se verdadeiros nómadas da música. Com o novo estilo de vida, surgiu um novo estilo musical: a música cigana, que teve como expoente máximo o ainda hoje abundantemente requisitado nos programas de discos pedidos nas melhores rádios piratas locais “Ai miúdo, se não te calas levas um tapa-olhos que até voas” [ouvir / letra].

O sucesso, porém, esfumar-se-ia ao fim de uma semana, quando os elementos do grupo descobriram pertencer a clãs rivais e passaram a ameaçar-se recorrentemente com armas brancas.
Homossexuais? Ai, credo!
Com os gendarmes à perna, e para desanuviar do ambiente tenso entretanto criado no seio da banda, os NuKu resolveram viajar até à Holanda, inspirados por nomes tão importantes da cultura mundial como Vincent van Gogh e Johann Cruyff.
Foi no país das tulipas e de outros aromas interessantes que conheceram Zinho, uma bailarina transexual, que exercia a sua actividade profissional no Red Light District de Amsterdão. Foi Zinho quem introduziu os NuKu no mundo do revivalismo disco e outras experiências tão ou mais alternativas, para além de os ter apresentado à filha do Nené.

O disco “NuKuzinho”, de onde se destaca “Dá-me querido” [ouvir / letra], surgiu como a inevitável homenagem ao novo amiguinho do peito.
Laca, laca e mais laca!
Cansados do submundo gay, mas ainda fascinados pela indumentária que lhe é própria, nomeadamente os collants, o grupo começou a procurar outros estilos musicais que lhe permitissem aproveitar a enorme colecção deste tipo de vestuário (para cima de 1398 pares) que entretanto haviam juntado.
Abusar da laca e das permanentes para manter o cabelo no ar, calçar umas botas de pele de vaca e seguir a linha do rock melódico, pareceu-lhes ser a solução ideal.

O sucesso de músicas como “Come on baby” [ouvir / letra] provou-lhes, e ao mundo, que estavam certos. Ou, pelo menos, que não conseguiram arranjar uma alternativa melhor. Mas nem tudo seriam rosas...
Animais culturais
O uso de collants três números abaixo da medida certa durante tanto tempo teve efeitos secundários devastadores, que mudariam para sempre o devir histórico daquela que é considerada a maior banda do universo (pelo menos por uma parte daqueles que nunca escutaram outra).
As vozes dos membros dos NuKu haviam-se tornado mais agudas do que uma sirene dos bombeiros, e até do que a voz da Júlia Pinheiro, o que não deixava outro remédio à banda senão adoptarem como sua a música lírica.

Apesar das dificuldades derivadas do facto de tocarem para um público erudito, quando o mais letrado dos seus elementos era a baterista Marina Truca, com o seu quinto ano incompleto do curso comercial, os NuKu conseguiram mais um êxito arrasador, com um disco gravado ao vivo no programa Acontece da RTP 2, que incluía a surpreendente “Opereta do collant” [ouvir / letra].
Todos bons
Mas tudo o que é demais chateia... Cansados de serem alvo da chacota de todos os machões dignos desse nome, por causa das suas vozes ridiculamente fininhas, os NuKu resolveram cortar o mal pela raíz.
Fechados a sete chaves, durante semanas a fio, na tasca do Quim da Burra, afogaram em bagaço o agudo problema que os afligia.

E assim operaram uma nova mudança artístico-musical, com o bagaço a servir de catalizador para o despertar de uma sexualidade há muito adormecida. Eles sentiam-se os novos reis da soul! “Sente o suor” [ouvir / letra] ficou como um hino para toda uma geração de Martini Men de trazer por casa.
Uau, tantas luzes psicadélicas!
Apesar do vozeirão, os resultados junto do sexo oposto não foram animadores. A banda tomou uma atitude radical: esticou o dedo (como tantas vezes lhes tinham feito, se bem que talvez não exactamente o mesmo) e fez-se à estrada.
Só pararam em Woodstock, atraídos pela expectativa de ver milhares de pessoas nuas a rebolarem lascivamente na lama. Dir-se-ia que seria impossível viver coberto de lama tanto tempo sem estar sob a influência de uma qualquer substância química. Infelizmente, nem sequer para se viciarem numa droga em condições os NuKu serviram: foram engolidos pelo mundo escuro do chocolate...

Quico Mercúrio viciou-se em Tulicreme, Quim Ricardo não largava o Cola Cao, Marina Truca não vivia sem a sua dose diária de chocolate de cozinha, mas foi Paulo MáCara quem mais sofreu, mergulhando no inferno do chocolate quente injectado.
No entanto, o doce preto não trouxe só desgraças, permitiu também a composição de algumas cantigas de intervenção, na linha de Dylan ou Emanuel. Apesar das deficientes condições técnicas em que foi gravado, com músicos e instrumentos cobertos de lama e chocolate, “Paz para as criancinhas” [ouvir / letra] revela-se hoje uma música à frente do seu tempo (e de qualquer tempo, aliás).
Muitos instrumentos... nenhum jeito!
Mas os tempos conturbados de Woodstock acabaram quando os membros da banda, fartos de se verem devorados pelo flagelo do cacau, se inscreveram nos Chocolateiros Anónimos (CA).
A fase de desintoxicação deixou-os, porém, incapazes de coordenar os movimentos. Tornava-se inevitável seguirem o rumo do jazz.

A desorientação então vivida pode ser perfeitamente escutada em “Jazz # 1” [ouvir / letra], ainda assim o menos execrável fruto deste período menos feliz. O pior momento foi vivido no Festival de Jazz de Montegordo, quando os NuKu foram expulsos do clube onde se realizava o evento, acabando a noite a dormir na praia...
Vendo-se negros...
Depois de quase uma semana a dormir na praia, os NuKu acordaram para a negra realidade: de tão bronzeados que ficaram, pensavam ver Bonga de cada vez que se olhavam ao espelho.

Não lhes restava outra solução senão tomar o cantor angolano como seu guru e seguir numa viagem em busca das raízes africanas que não tinham. “Eu quero ligar p'ró avô Malaquias, pá” [ouvir / letra] é bem um exemplo desta procura.
Os animais são nossos amigos...
Depois de um incidente, ainda não totalmente explicado, mas que se sabe ter envolvido um hipopótamo e o guitarrista Quim Ricardo, a banda foi forçada a regressar a Portugal. Instalaram-se, à falta de melhor (e acredita que procuraram em todo o sítio), na casa de Paulo MáCara.

Aí descobriram a triste realidade vivida por Leão, o cão da família. A expressão sofredora do animal trouxe a melancolia aos corações dos NuKu e os blues ao seu som. “Os azuis do Leão” [ouvir / letra] doem só de ouvir... e a culpa, desta vez, não é só da falta de talento.
O quê? Fala mais alto!
Mas as mágoas não pagam dívidas, e Paulo MáCara, ao ver que tinha agora mais três bocas para sustentar, teve de arranjar um emprego como animador e porteiro e DJ e segurança e contínuo da boite Banana Split.
O gosto pela música techno cresceu no baixista e contagiou os seus companheiros. Atraídos pelo facto de poderem fazer música rodando apenas meia-dúzia de botões, os NuKu fizeram furor nas pistas de dança mais quentes, de Moledo à Praia dos Tomates.

É impossível não vibrar e sacudir os ossos ao som de “Wait here (till I get back)” [ouvir / letra], nem que seja para sair dali para fora!
Sou tão mau, não sou mãezinha?
A fase techno teve uma consequência altamente negativa: a banda esqueceu o pouco ou nada que sabia tocar.
A opinião foi unânime no seio dos NuKu: a única música que não lhes exigia que soubessem tocar qualquer instrumento era o punk. Simularam uma pose de raiva para com o mundo e insultaram velhinhas, animais e tudo o que mexesse... ah, e o Papa também!

Do desnorte total nasceu, ainda assim, verdadeira arte. Criaram “God fuck the queen” [ouvir / letra] e nasceram de novo.



